Pular para o conteúdo principal

Entre o pão e o silêncio do cotidiano

Nos dias atuais, tornou-se cada vez mais comum recorrer a refeições prontas, entregas rápidas e soluções que prometem economizar tempo. A rotina acelerada e as múltiplas exigências do cotidiano fazem com que cozinhar nem sempre encontre espaço entre as prioridades do dia. Ainda assim, preparar alimentos permanece como um gesto silencioso de cuidado — um momento em que as mãos desaceleram, os sentidos despertam e o tempo parece respirar em outro ritmo.

O alimento chega até nós como dádiva da terra e do trabalho humano. Antes de chegar ao prato, passa por ciclos, mãos e caminhos. Ao ser preparado, transforma-se: ganha calor, aroma, textura e intenção. Cozinhar é, nesse sentido, um gesto de atenção — uma forma simples e concreta de cuidar de si e de quem se senta à mesa.

Mesmo quando se vive só, preparar a própria refeição pode ser um instante de presença. Lavar os ingredientes, cortar, mexer, temperar, observar o vapor subir lentamente: pequenas ações que convidam o corpo a estar ali, inteiro, participando do que faz. Nesse tempo breve, o cotidiano se reorganiza e a pressa encontra pausa.

A cozinha, muitas vezes chamada de coração da casa, guarda uma memória afetiva que atravessa gerações. Receitas transmitidas, cheiros conhecidos, gestos repetidos com naturalidade constroem uma linguagem silenciosa de pertencimento. Aprendemos nomes de ervas, modos de preparo, combinações simples — e, junto com eles, aprendemos cuidado, partilha e presença.

Preparar alimentos não é apenas nutrir o corpo. É também oferecer aconchego, criar vínculos, celebrar o ordinário. Cada refeição carrega algo de descanso e de afeto: um intervalo no dia, uma pausa possível, um momento em que o tempo cotidiano se torna mais acolhedor.

Entre o pão partilhado e o silêncio da cozinha, permanecem os gestos simples que continuam a nos nutrir.


Este ensaio é um convite a refletir sobre as pausas afetivas: cozinhar, preparar e alimentar-se como gestos de atenção e afeto.

🍎🌼🍵🍴🍶💛

Fonte da imagem: acervo pessoal da autora.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bienal do Livro RJ 2025 – meus contos e poesias em 5 publicações especiais

A escrita, o desenho e a arte sempre estiveram presentes na minha vida. Desde cedo, essas formas de expressão fizeram parte do meu dia a dia, mas eu nunca imaginei que algum dos meus textos um dia seria publicado. Essa primeira participação na Bienal do Livro do Rio de Janeiro é um marco especial e reforça a importância de acreditar, perseverar e dedicar um tempo ao que nos faz bem. Mesmo com a correria do dia a dia, vale a pena preservar aquilo que nos traz alegria. Desde que aprendi a ler e escrever, sempre mantive cadernos de anotações, desenhos e ideias. O que hoje chamam de “escrita criativa” para mim sempre foi um jeito natural de brincar com palavras, sentimentos e histórias. Essa relação com a escrita começou cedo, com o incentivo da minha mãe. Quando eu era criança, ela me presenteou com um pequeno caderno. Era um caderno brochura, de capa dura vermelha, com adesivos e figurinhas. Ela tinha um igual, amarelo. Enquanto ela escrevia poesias no dela, eu observava. Foi ela quem...

Diversidade Cultural - Cultura Africana na Literatura Infantil

 Hoje estamos trazendo alguns títulos da literatura infantil que abordam a Diversidade Cultural e que fazem referência à Cultura Africana. Nas escolas, no mês de Novembro, esse tema é muito comum de ser trabalhado através do Multiculturalismo e de forma Interdisciplinar. Torna-se necessário se atentar para uma abordagem que não caia no estereótipo. Existem muitas coisas interessantes a serem trabalhadas a partir  das culturas. Costumes, histórias, hábitos, curiosidades, indo além dos fenótipos. Através da literatura, essa abordagem se torna mais rica e coesa. Abaixo, alguns livros infantis que trazem um pouco da cultura africana e que vão além do trivial, mostrando a cultura como um leque que constrói a identidade de um indivíduo e de um povo. É na infância que se determina a consciência de que a cultura é a identidade de um povo, que remete às raízes, à história e histórias! 💛

O jardim como prática diária de autocuidado e cuidado com o meio ambiente

 No mundo contemporâneo, marcado pela presença constante das tecnologias digitais, torna-se cada vez mais relevante buscar formas de reconexão com nossa natureza orgânica e mutável. Entre essas possibilidades, o cuidado com jardins, hortas e pequenos espaços verdes presentes no cotidiano se destaca como uma prática simples, porém significativa. Ao lidar com a terra, as plantas e os ciclos naturais, somos convidados a reconhecer nossa própria materialidade e fragilidade, compreendendo-nos como parte do tempo e das diferentes fases da vida. Plantar, regar, cuidar, aguardar o crescimento e observar os resultados — as cores que surgem, os aromas que se espalham, as texturas que se revelam — são gestos que enriquecem o cotidiano. Essas ações introduzem pausas, atenção e sensibilidade em rotinas muitas vezes aceleradas, permitindo a vivência de um tempo mais presente e cuidadoso. A presença de quintais, jardins, hortas ou mesmo vasos de plantas, assim como a participação ativa nesses ...